06/02/11

Notas de uma corrida (parte I)

Fitam-me com um ar de abnegação, calço-as. Porque está frio, levo casaco de fato-de-treino por cima da t-shirt e as calças de atletismo.

Já corri mais, muito mais, sinto às primeiras passadas, mas apesar de tudo sei que ainda continuo em forma e esta ideia faz-me sorrir. Passo a ponte, ao lado o rio Douro, olho-o sempre demoradamente pois preciso de me sentir bem pequeno e humilde para o que sempre se segue. O relógio conta três minutos quando começa a subir, esta terra é íngreme demais sei-o muito bem e por isso continuo, resignado.

Em tempos o pai de um amigo disse-me “ai moras nessa terra, a igreja de lá tem muitos sinos não é verdade? São prái uns dezasseis, é um exagero”, lembrei-me não sei bem porquê, talvez porque estão a dar 18h enquanto a contorno. Rapidamente fica para trás, passei lá muito tempo, tempo demais…

De seguida vejo também pelas costas a casa de dois primos meus e relembro-me dos tempos em que era inseparável do mais novo. Recordo-me que num belo dia decidimos amarrar com uma corda as nossas bicicletas e andar assim estrada fora. Apesar de não me recordar do propósito de o ter-mos feito, sei que acabamos por ganhar catorze pontos à custa da invenção, pena terem ficado todos na minha testa!

Ao fim de dez minutos e meio paro o relógio e faço a primeira e única paragem. Entro na cozinha dos meus avós, que é também a primeira divisão da casa e reparo que quase tudo continua igual. Debruçados na mesa da cozinha, sentados frente a frente, perto do fogão a lenha, falam em tom baixo. Naquela casa é fácil encontrar amor, foi sempre assim recordo com carinho. Ainda consigo ouvir as vozes e sentir o cheiro dos tempos em que esperava-mos pelas torradas preparadas no antigo fogão a lenha que não resistiu e cedeu a uma vida de trabalho. A voz autoritária do meu avô “cheguem para trás, depois saem daqui quentes, vão lá para fora e ficam doentes”, a voz segura mas meiga da minha avó “estão prontas as torradas, já chega de brincadeira, sentem-se à mesa”, a minha prima “ quero esta que é mais clarinha” e se eu não chegava com a mão primeiro tentava convence-la que “as mais queimadas são melhores” e o primo mais pequeno indiferente a todas estas disputas já ia para a segunda. Agora, sei e sinto que algo mudou, para além da ausência óbvia dos três primos que já estão crescidos. Ao olhar para a minha avó quando entro vejo, as luvas e as calças com que tenta esconder as feridas originadas pela má circulação, em parte para não preocupar ninguém e vejo também na sua cara que ainda à pouco contava as histórias que os dois viveram, na esperança que a doença que gasta as memórias do meu avô, não as leve.

Depois de os cumprimentar, algo triste, sigo o meu caminho. Não posso ficar muito tempo senão arrefeço e relaxo, o que tornaria o resto da subida bem mais penosa.

to be continued (um dia destes)...

7 comentários:

Cat disse...

speechless

Carlos disse...

Muito bonito. muito bem escrito :)

. disse...

isso, deixa-me invejoso que estou manco.

depois queixa-te que a bílis matou as taínhas da barragem.

Gersão disse...

Vocês estragam-me com mimos :p

E du, suspeito que a tainha é uma espécie alterada com adn do Chuck Norris, não é fácil mata-las, há sempre mais uma...

x disse...

oh. como conheço os sentimentos que descreves e como são bonitas as tuas palavras. speechless indeed. *

Alexandre disse...

pah, quase que me fizeste chorar...tt sentimento em apenas uma corrida.nunca pensei que correr pudesse ser tao lindo.

Gersão disse...

X, obrigado :)

Alex, afinal não sou eu que tenho lágrima fácil :p e correr é lindo, já devias saber.